Indiferente aos julgamentos sobre minha modesta e tenra idade, tenho-vos a garantir que minha alma não compartilha com a idade biológica. Considero-me muito senil para estas 28 primaveras que já são aparentes na minha fronte. Incompatibilizo-me com os rumos que o impalpável e invisível vem tomando.
Não estou aqui para me autobiografar, mas sim para lamentar publicamente a falta de poesia nas vidas de tantos. Vocês entenderão. Poesia e romance são sinônimos. O romantismo está em extinção. E garanto-lhes: poucos estão motivados à sua procura. Que pena. Os professores desta disciplina, que deveria fazer parte do currículo escolar, estão lastimavelmente nos deixando, com poucos discípulos capazes de ensinar a arte à posteridade.
Sem romance, depressivos padecem os corpos de tantos nas cadeiras do jardim das tristezas. Convivo neste jardim, na função de médico jardineiro, tentando, com pílulas ou conselhos, fazê-los plantar rosas e distribuí-las pelas ruas a todos que mirarem seus olhos.
O romance é uma fala risonha, um olhar envolvente, um aceno energizante, uma gentileza respeitosa. Engana-se aqui quem pensa que se restringe à troca de afeto apenas entre casais. O romance está na polidez na conversa com o garçom, na cortesia do trânsito alucinado por buzinas indiscretas, na elegância do “bom dia” ao porteiro.
Alguém ainda leva maçã para a professora? O romance está no bilhete redigido à caneta, no pinheiro de Natal montado em comunhão, na abertura da porta do carro aos acompanhantes. Encontra-se na graciosidade do abraço aos amigos. Na elegância com a moça do caixa do supermercado.
Escassos sabem seu endereço, e vos escreverei em nome de todos:
Carta ao romantismo:
“Sei que deves estar entristecido por ter caído em esquecimento por tantos. Desculpas, peço-te de antemão. A verdade é que estamos ansiosos por seu retorno. Seja lá onde estiver, tome os rumos de nossas essências. Obsequiosamente. Traga consigo seus buquês de flores, cartões de floricultura, bilhetes no para-brisas do carro. Não esqueças, delicadamente, do aperto de mão, do perfume na roupa, dos elogios em público e do aceno sorridente.
Permita-me pedir que traga junto seus primos “obrigado” e “por favor” e um beijinho doce. Compadeça-te de nosso desatino pela rotina desgastante que o fez deixá-lo adormecido. Sem você, o mundo perdeu a cor. O céu tornou-se cinza. O ar asfixiou. A chuva secou. O abraço enrijeceu. O bom dia calou-se. Os lábios fecharam-se. A caneta falhou. A ligação caiu. A flor não desabrochou.
Adoecemos pela falta de tua presença.”
Uma mente hostil, sem romantismo, gera um corpo enfermo. GENTIL-MENTE. Sejamos mais amáveis, logo, mais felizes. Receitemo-nos: empatia, carinho e benquerença. Menos farmácia. Maior amor e romance.
Norberto Weber Werle
Norberto é médico e escritor.

