A cura da dor de dente e a preservação da vida e do patrimônio


Era o ano de 1923. Santo Augusto se chamava Boca da Picada. Na época no Rio Grande do Sul ocorria uma revolução entre os partidários do Governador Borges de Medeiros e seu opositor Assis Brasil, a denominada Revolução de 23.

Boca da Picada, mais tarde Santo Augusto, era um pequeno lugarejo com pouco mais de 10 casas, estas se localizavam na beira de uma picada que ligava a região de Ijuí ao sertão do Alto Uruguai.

Entre os moradores da sede do povoado se encontrava a família de Ildefonso e Diva Teixeira Lucas, vindos com outros colonizadores de Pelotas e Candiota. O casal era devoto de São João Batista e tinha em sua casa uma imagem de seu santo predileto. Ildefonso de Diva eram pequenos comerciantes localizados onde hoje existe o prédio do Supermercado Santi no entroncamento da Avenida do Comércio com a Rua Maurício Cardoso.

A revolução chega a Boca da Picada comandada por partidários de Borges de Medeiros, que de acordo com os métodos guerreiros da época, saqueavam, prendiam e abusavam de seus inimigos. Dirigiram-se ao comércio de seu Afonsinho para praticar as práticas usuais. Também, como de costume, os homens, nestas situações, fugiam e levavam consigo bens de valor e, tudo o que pudessem carregar em carroças, animais e outros bens. Ficavam em casa as mulheres e crianças para defender o patrimônio que fosse possível.

Chegaram à casa comercial de Ildefonso e Diva, logo na entrada encontraram uma estátua de São João Batista colocada em uma mesa e decorada como local sagrado. Vendo a imagem, o chefe do grupo, chamado Turibião, manteve uma postura de certo respeito e, pediu ao Santo que ajudasse, um parceiro seu a melhorar de uma terrível dor de dente. A dona da casa, que já tinha procurado tratar o chefe muito bem, ouvindo o caso, medicou o soldado com um comprimido de melhoral que fez efeito rapidamente, fato que agradou ao chefe e este lhe passou a dever certo respeito e toda a vez que passava pela imagem lhe rendia homenagens de agradecimentos. Assim perdurou a permanência do grupo na região, por cerca de 15 dias, que de vez em quando passava na loja de Diva, como foram bem tratados e houve a cura do soldado, não causaram lesão a ninguém e nem ao patrimônio de seu Afonsinho e de dona Diva.

Partindo a caravana, dona Diva avisou seu Afonso para retornar a casa e rezar pela sorte do ocorrida. No oco da imagem estava guardada a economia da família e, sob a mesa estava localizada a porta do porão que dava acesso ao depósito dos produtos da loja. Graças à devoção a São João Batista e a “cura” da dor de dente do comparsa de Turibião o casal e o seu patrimônio foram preservados. Fizeram uma promessa de doar a imagem à primeira capela que fosse construída na vila. Em 1926, foi inaugurada a capelinha, e a imagem do Santo foi doado e, coroada como o padroeiro da igreja católica de São João Batista do povoado

Esta imagem, esteve exposta no alto da torre da Igreja Matriz, localizada na Travessa Menino Deus, na praça da cidade e, era utilizada na procissão da novena do padroeiro. Por volta de 2006, nova imagem foi doada por um pagador de promessa e a imagem voltou para o ceio de familiares de Ildefonso e Diva.

  • Pesquisa feita junto a familiares e pessoas da comunidade que testemunharam o fato, quando da indicação de Diva para patronesse da 17ª cadeira da ALENRIO
    Texto narrativo elaborado pelo Acadêmico Eugenio Frizzo-titular da 17ª Cadeira