Dante


Um estampido de automóvel desde ao longe arrancou todo o silêncio das noites e se arrastou por um chiado sem fim pelas curvas da estrada, quando então desembarcaram a urna, o lamento e a amargura. O lar anoiteceu e foi preciso do menino para adormecer.

A poeira e a serragem cobriam tudo em uma fina camada de ontem, os móveis ficaram inacabados num canto quase esquecido do galpão desde que ele seguiu com os homens para a metrópole. Neste maio, os dias se encompridaram, assim como seus olhares sobre as estradas vazias, à espera. 

Aos poucos esvaziou o cinzeiro esquecido sobre a chapa do fogão a lenha. O chio comprido da velha chaleira estalando sobre a brasa trouxe a lembrança. 

Porca Madona! esbravejou quando a água gelada da fonte que escorre em arrepios tirou-lhe o fôlego. Banhava-se todas as manhãs. A água gelada lhe deu ânimo para entrar novamente no galpão. Bateu o pó sobre a madeira e ordenou que os filhos arrastassem o armário para a cozinha. Uma porta dependurada e duas gavetas por fazer, a bancada ainda para ser aplainada fazia uma caída nas bordas.

Era sábado, dia de fornada de pão fresco. Curvou-se sobre o móvel salpicando os dois pés de farinha, que caía do amontoado da fina reserva de trigo que a pouco trouxeram do munho.

Retorcia os punhos cerrados deslizando sobre a massa e os resmungos lhe apetecia vez ou outra e escapava-lhe “aqueles lipas!”.  

Agarrada aos velhos costumes de uma jovem viúva, quase não se afastava do terreiro de casa. Perambulava por aquele chão varrido a cada toada de folhas e antes que o sol estivesse a pino desfazia a trouxa de roupas sujas na água e coletava o feixe de galhos de vassourinha, que campeou no canto do mato.

Os meninos, na barra da sua saia, estavam pelo quintal chateando um com o outro, subindo nas pontas do arvoredo e espantando as galinhas já empoleiradas. 

“Comadre!!!!!” – um grito comprido e a voz foi se esmiuçando junto ao barulho da água que jorra aos seus pés e some pelo ralo. Tratou de se vestir para sair, ao sair se deparou com a irmã, que a encarava e dizia algo que não entendeu. Seus olhos arderam e aquele ardor desceu pelo bucho, sentiu uma fisgada rasgar as tripas e uma tontura a derrubou por cima da cadeira de palha.

As ferpas da velha cadeira lhe pinicaram a pele, o que a fez atinar e gritar pelo filho mais novo. O pobre menino andou com os olhos escondidos em lágrimas, pisoteando o desespero. 

Chamaram a mãe para assinar a nota do féretro. Um homem esguio entregou-lhe a caneta, enquanto ela balbuciava em prantos “meu nome sempre escrevi com a ponta do dedão”.  Seu dedo duro do cabo da vassoura tocou o macio do papel e encheu seu olhar de tinta. A tinta no canto do avental azul, tingiu no tecido velho e surrado a sua digital.

Fatigado pelos meses de lamento em casa, o filho aproxima-se e aperta seu corpo franzino aos braços corpulentos da mãe. Assustados, escondem uma última lágrima.

O vento secou tudo, lágrimas, as plantações e o chão. O fio da aguada misturava-se ao limo e às barbatingas. Agarrou a Santa nos braços e desceu em cortejo para os lados do arroio. Na poça mais funda amarrou a Santa aos pés e a água mal envolveu a cabeça e o pescoço. Prometeu deixá-la naquele fio de água até que o vento norte trouxer chuva, não há mais peixe e a imagem da santa no lodo lhe deu pavor. 

A seca magoou o gado, secou a vertente e não lhes deixa colocarem as sementes no chão, a terra arde. As tábuas largas da casa se retorcem e estalam no vento seco no alto da campina e se misturam a voz madura da nona contando histórias para adormecer. Mérica storta! Ela ouviu de sua mãe, que ouviu da mãe dela.