O tempo faz seu curso em um caminho talhado de memórias que constituem os sujeitos. E aqui quero mencionar as memórias que desvelam um elo, e falam de um lugar de pertença: o de descendente de imigrantes alemães. Deste lugar, percorro os anos da minha vida, e em cada refúgio de lembranças encontro a presença do elemento fundamental que materializa o sentimento de pertença: a língua de imigração alemã.
As recordações da mais tenra idade me levam até na casa da oma[1], onde depois do almoço de domingo a louça era secada com um pano de prato pintado à mão, em que estava escrito “Der Herr ist mein Hirte, mir wird nichts mangeln[2]”. Sobre a tampa do fogão havia outro pano estendido que dizia “Sonntag[3]”, e na parede um lindo wandschoner[4] antigo bordado em letra gótica, anunciando “Ich aber und mein Haus, wir wollen dem Herrn dienen! Josua 24:15[5]”. Sobre a mesa, um delicado vaso de flores colhidas no jardim, e um conhecido livro que em sua capa dizia “Die Heilige Schrift[6]”.
No seio do lar, as memórias da infância me trazem meus pais, me ensinando a orar “Ich bin Klein, mein Herz ist rein. Darf niemand drin wohnen als Jesus allein[7]”. No tranquilo cotidiano da vida na roça, sempre se ouvia alguma canção docemente cantarolada, rompendo o silêncio dos dias adornados pela paz que impera na simplicidade e beleza do campo. Dentre as melodias favoritas do meu pai, há uma que faz meu coração transbordar de saudades, pois me leva de volta ao tempo em que ainda podia ouvir a sua firme a afinada voz entoando “Nur einmal machst du diese Reise, lass eine gute Spur zurück[8]! […]”. Da mesma forma, me recordo dele amorosamente me disciplinando: “Ja, ist já. Nein, ist nein[9]”; e essa clareza de discernimento tem sido uma valorosa herança.
Dos afetos mais pessoais, aos sujeitos da minha pesquisa de Tese de Doutorado… Recordo-me tão bem de uma das entrevistas, em que um senhor idoso, recentemente falecido, com o olhar marejado de lágrimas após evocar suas memórias, me disse : “Wegen dieser Sprache, der einzigen, die ich in meinem Leben wirklich gelernt habe, wurde ich verhaftet und bestraft. Aber sagen Sie mir, es das heute noch vichtig?[10]”. E foi esse questionamento que me acompanhou em todo o percurso do fazer científico e me permitiu mostrar que sim, “dieser Sprache ist vichtig[11]”.
Especialmente, porque não é só uma língua; é sobre um povo, um lugar, uma história e uma memória que se resumem em uma forma de ser no mundo. Não se trata de estar entre dois lugares, mas de um lugar de ser: descendente de imigrantes alemães, ou, simplesmente “alemães”, constituídos pela identidade de pertença. A identidade que é o elo a uma Heimat[12] que nunca vislumbraram com seus próprios olhos, mas que corre em suas veias e pulsa em seu peito com uma força indomável, arraigada no tempo.
MINIBIOGRAFIA:
– Natural de Novo Machado – RS, nasceu em 21 de janeiro de 1995. É filha de Nilse Fiepke e Rubin Airton Fiepke (in memoriam); e casada com Maichel Carpenedo.
– Possui Graduação em Jornalismo, Mestrado e Doutorado em Letras, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
– É membro fundadora da Academia de Letras do Noroeste do Rio Grande do Sul (ALENRIO). No que tange ao gênero literário, tem escrito principalmente Poesia e Crônica.
– Atualmente é Diretora de Supervisão e Educação, na Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Desporto e Lazer, de Novo Machado – RS.
[1] Tradução nossa: Avó.
[2] Tradução nossa: O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.
[3] Tradução nossa: Domingo.
[4] Tradução nossa: Pano de parede.
[5] Tradução nossa: Mas quanto a mim e à minha casa, queremos servir ao Senhor! Josué 24:15.
[6] Tradução nossa: Sagradas Escrituras.
[7] Tradução nossa: Sou pequeno, meu coração é puro. Ninguém tem permissão para morar lá, exceto Jesus sozinho.
[8]Tradução nossa: Você só faz essa jornada uma vez; deixa um bom rastro para trás!
[9] Tradução nossa: Sim, é sim. Não, é não.
[10] Tradução nossa: Por causa dessa língua, a única que verdadeiramente aprendi na vida, eu fui preso e castigado. Mas me diga, isso ainda importa hoje?
[11] Tradução nossa: Essa língua é importante/ essa língua importa.
[12] Tradução nossa: Pátria (sentido: lugar de origem comum).

