{"id":240,"date":"2024-12-10T20:40:36","date_gmt":"2024-12-10T23:40:36","guid":{"rendered":"https:\/\/alenrio.org.br\/encontro\/?p=240"},"modified":"2024-12-10T20:40:36","modified_gmt":"2024-12-10T23:40:36","slug":"dante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alenrio.org.br\/encontro\/dante\/","title":{"rendered":"Dante"},"content":{"rendered":"\n<p>Um estampido de autom\u00f3vel desde ao longe arrancou todo o sil\u00eancio das noites e se arrastou por um chiado sem fim pelas curvas da estrada, quando ent\u00e3o desembarcaram a urna, o lamento e a amargura. O lar anoiteceu e foi preciso do menino para adormecer.<\/p>\n\n\n\n<p>A poeira e a serragem cobriam tudo em uma fina camada de ontem, os m\u00f3veis ficaram inacabados num canto quase esquecido do galp\u00e3o desde que ele seguiu com os homens para a metr\u00f3pole. Neste maio, os dias se encompridaram, assim como seus olhares sobre as estradas vazias, \u00e0 espera.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos esvaziou o cinzeiro esquecido sobre a chapa do fog\u00e3o a lenha. O chio comprido da velha chaleira estalando sobre a brasa trouxe a lembran\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Porca Madona! esbravejou quando a \u00e1gua gelada da fonte que escorre em arrepios tirou-lhe o f\u00f4lego. Banhava-se todas as manh\u00e3s. A \u00e1gua gelada lhe deu \u00e2nimo para entrar novamente no galp\u00e3o. Bateu o p\u00f3 sobre a madeira e ordenou que os filhos arrastassem o arm\u00e1rio para a cozinha. Uma porta dependurada e duas gavetas por fazer, a bancada ainda para ser aplainada fazia uma ca\u00edda nas bordas.<\/p>\n\n\n\n<p>Era s\u00e1bado, dia de fornada de p\u00e3o fresco. Curvou-se sobre o m\u00f3vel salpicando os dois p\u00e9s de farinha, que ca\u00eda do amontoado da fina reserva de trigo que a pouco trouxeram do munho.<\/p>\n\n\n\n<p>Retorcia os punhos cerrados deslizando sobre a massa e os resmungos lhe apetecia vez ou outra e escapava-lhe \u201caqueles lipas!\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agarrada aos velhos costumes de uma jovem vi\u00fava, quase n\u00e3o se afastava do terreiro de casa. Perambulava por aquele ch\u00e3o varrido a cada toada de folhas e antes que o sol estivesse a pino desfazia a trouxa de roupas sujas na \u00e1gua e coletava o feixe de galhos de vassourinha, que campeou no canto do mato.<\/p>\n\n\n\n<p>Os meninos, na barra da sua saia, estavam pelo quintal chateando um com o outro, subindo nas pontas do arvoredo e espantando as galinhas j\u00e1 empoleiradas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComadre!!!!!\u201d &#8211; um grito comprido e a voz foi se esmiu\u00e7ando junto ao barulho da \u00e1gua que jorra aos seus p\u00e9s e some pelo ralo. Tratou de se vestir para sair, ao sair se deparou com a irm\u00e3, que a encarava e dizia algo que n\u00e3o entendeu. Seus olhos arderam e aquele ardor desceu pelo bucho, sentiu uma fisgada rasgar as tripas e uma tontura a derrubou por cima da cadeira de palha.<\/p>\n\n\n\n<p>As ferpas da velha cadeira lhe pinicaram a pele, o que a fez atinar e gritar pelo filho mais novo. O pobre menino andou com os olhos escondidos em l\u00e1grimas, pisoteando o desespero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Chamaram a m\u00e3e para assinar a nota do f\u00e9retro. Um homem esguio entregou-lhe a caneta, enquanto ela balbuciava em prantos \u201cmeu nome sempre escrevi com a ponta do ded\u00e3o\u201d.&nbsp; Seu dedo duro do cabo da vassoura tocou o macio do papel e encheu seu olhar de tinta. A tinta no canto do avental azul, tingiu no tecido velho e surrado a sua digital.<\/p>\n\n\n\n<p>Fatigado pelos meses de lamento em casa, o filho aproxima-se e aperta seu corpo franzino aos bra\u00e7os corpulentos da m\u00e3e. Assustados, escondem uma \u00faltima l\u00e1grima.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento secou tudo, l\u00e1grimas, as planta\u00e7\u00f5es e o ch\u00e3o. O fio da aguada misturava-se ao limo e \u00e0s barbatingas. Agarrou a Santa nos bra\u00e7os e desceu em cortejo para os lados do arroio. Na po\u00e7a mais funda amarrou a Santa aos p\u00e9s e a \u00e1gua mal envolveu a cabe\u00e7a e o pesco\u00e7o. Prometeu deix\u00e1-la naquele fio de \u00e1gua at\u00e9 que o vento norte trouxer chuva, n\u00e3o h\u00e1 mais peixe e a imagem da santa no lodo lhe deu pavor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A seca magoou o gado, secou a vertente e n\u00e3o lhes deixa colocarem as sementes no ch\u00e3o, a terra arde. As t\u00e1buas largas da casa se retorcem e estalam no vento seco no alto da campina e se misturam a voz madura da nona contando hist\u00f3rias para adormecer. M\u00e9rica storta! Ela ouviu de sua m\u00e3e, que ouviu da m\u00e3e dela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um estampido de autom\u00f3vel desde ao longe arrancou todo o sil\u00eancio das noites e se arrastou por um chiado sem fim pelas curvas da estrada, quando ent\u00e3o desembarcaram a urna, o lamento e a amargura. O lar anoiteceu e foi preciso do menino para adormecer. 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