{"id":1225,"date":"2025-05-13T20:51:42","date_gmt":"2025-05-13T23:51:42","guid":{"rendered":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/?page_id=1225"},"modified":"2025-06-10T11:04:56","modified_gmt":"2025-06-10T14:04:56","slug":"mito-de-fundacao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/mito-de-fundacao\/","title":{"rendered":"Mito de funda\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>MITO DE FUNDA\u00c7\u00c3O DA ALENRIO<\/strong><br>Carlos Pedroso dos Santos<br>Renato Pereira<\/p>\n\n\n\n<p>Certo dia o Minuano, num passado muito distante, depois de transpor os Andes para ganhar a liberdade de muitos horizontes, fizera nascer um verde poncho com as sementes trazidas no bolso de seu chirip\u00e1, para com ele cobrir a dilatada Prov\u00edncia de S\u00e3o Pedro, a P\u00e1tria do Tuf\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu pai, o velho Tuf\u00e3o, n\u00e3o queria v\u00ea-lo partindo, pois sabia que o filho, ao partir, tomaria o gosto pela aventura, e talvez para a casa n\u00e3o retornasse. Mas o mo\u00e7o Minuano, em cujas veias corria o anseio pela liberdade, esperou o pai dormir, e transp\u00f4s a cordilheira, para na Prov\u00edncia de S\u00e3o Pedro estabelecer sua morada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por muitos dias andara garboso a espadanar as folhas das palmeiras, a cochichar segredos de amor aos seus ouvidos. Por\u00e9m, certo dia, quando o sol j\u00e1 se punha, incendiando nuvens com a mais v\u00edvida p\u00farpura, sentira o cansa\u00e7o a mexer com seus nervos, e nem for\u00e7as mais tinha em seus pulm\u00f5es para assobiar a can\u00e7\u00e3o da liberdade que tanto almejava.<\/p>\n\n\n\n<p>Deitado sobre o verde poncho que ele mesmo havia criado, sentiu que as for\u00e7as aos poucos lhe abandonavam. Pensou em voltar \u00e0 casa paterna e, ajoelhado aos p\u00e9s do velho Tuf\u00e3o, implorar que lhe perdoasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabia, no entanto, que o pai n\u00e3o lhe perdoaria a insensatez de ter abandonado sua casa para se aventurar por plagas desconhecidas. Por outro lado, n\u00e3o suportaria a humilha\u00e7\u00e3o de ter fracassado em sua busca pela liberdade que tanto sonhara.<\/p>\n\n\n\n<p>Na noite de breu que se esva\u00eda ante seus olhos \u2014 pois a lua parecia tamb\u00e9m castig\u00e1-lo pela desmesurada ousadia de ter deixado a casa paterna \u2014 fechou os olhos para acostumar-se com a escurid\u00e3o, para, mesmo tateando, procurar um abrigo mais seguro e acolhedor, onde pudesse descansar seu corpo fraco e alquebrado de tantas andan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o que, mesmo com os olhos fechados, avistara uma luminosidade infinda, que pairava muito longe, nos confins do horizonte, como a lhe indicar um abrigo seguro, onde a lua tamb\u00e9m descansava em sua cama de prata.<\/p>\n\n\n\n<p>De \u00edmpeto levantou-se de seu letargo e, buscando reunir for\u00e7as que n\u00e3o tinha, seguiu pela noite adentro, vadeando rios, plan\u00edcies e florestas, em busca daquela vis\u00e3o espl\u00eandida que parecia marcar seu caminho rumo \u00e0 liberdade suprema.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante toda a noite caminhou. Tinha pressa de chegar. At\u00e9 mesmo o frio que trazia em sua ess\u00eancia \u2014 e que sempre alimentara sua alma \u2014, a cada passo que dava, parecia diminuir, junto com suas for\u00e7as. Por\u00e9m, a vontade de ganhar um abrigo seguro para poder repousar e, de repente, ali estabelecer sua morada, era maior que a canseira que consigo trazia.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 era madrugada quando escutou vozes e tudo o que as envolvia. Repentinamente, o encantamento tomou conta de sua alma. Em sua frente, com muita intensidade que quase o cegava, estava uma mata de sarandis, que guardava o grande rio, de cujas \u00e1guas sa\u00edam as vozes que nitidamente seus ouvidos escutavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentiu a emo\u00e7\u00e3o tomar conta de sua alma. De seu pai, muitas vezes ouvira a lenda de um grande rio que os \u00edndios chamavam de Yurugua\u2019y \u2014 que era tamb\u00e9m o rio dos carac\u00f3is, o \u201crio dos p\u00e1ssaros pintados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As vozes que vinham de seu leito davam-lhe certeza de que havia encontrado o rio que falava, n\u00e3o com palavras, mas com murm\u00farios profundos, como se estivesse a ninar a mem\u00f3ria da terra, das matas, das estrelas e da lua cheia que vinha em suas \u00e1guas se espelhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, nas matas de sarandis, resolveu o Minuano estabelecer sua morada, para com encantamento escutar as vozes que vinham daquele rio, que por sua vez passou a chamar de Uruguai, respeitando o nome ind\u00edgena a ele atribu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentiu que ali deveria permanecer, pois durante as noites, ao fechar os olhos para dormir, sentia ser arrebatado pelo clar\u00e3o intenso que pairava sobre as matas de sarandis, guardi\u00e3s daquele rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na conflu\u00eancia das \u00e1guas com as matas densas do noroeste, segundo seu pai, havia nascido Yara. \u00cdndia pertencente ao cl\u00e3 guarani, trazia em sua garganta as mais lindas notas musicais e, com seu canto, enchia as florestas de magia e doces mist\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, ao perceber que seu nome era esquecido por todas as tribos que ali viviam, deitara-se sobre a correnteza do grande rio e, antes de ser por ele tragada, dera-lhe a incumb\u00eancia de continuar cantando, para com seu canto envolver as matas de sarandis, cujas copas em seu leito se curvariam em rever\u00eancia para ouvi-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era bom estar ali, para escutar a maviosidade do murm\u00fario das \u00e1guas que falavam, e que, em suas noites de canseira das muitas andan\u00e7as, vinha-lhe aos ouvidos em forma de uma linda can\u00e7\u00e3o de ninar.<\/p>\n\n\n\n<p>Resolveu, ent\u00e3o, certa noite, emprestar o vento que habitava em sua ess\u00eancia para aquelas vozes que vinham do rio. Queria que todo mundo tivesse o encantamento que ele tinha, ao ouvir aquela maviosa cantilena. Por isso, soprou por dias a fio sobre as \u00e1guas do Rio Uruguai, at\u00e9 transformar aquelas vozes num mito, para encantar a todos que tivessem a felicidade de ouvi-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Mal sabia o Minuano, que aquelas vozes e cantares tinham o dom de misteriosamente atrair, como outrora fazia Yara, todos os animais e p\u00e1ssaros que de muito longe vinham, ao escutarem a maviosidade de seu canto. E foi assim que um canarinho amarelo, cruzando os c\u00e9us muitas l\u00e9guas ao norte, em busca de um ch\u00e3o onde seu cantar pudesse ter o mesmo encanto da voz que a brisa mansa trazia aos seus ouvidos, ali chegara. Ao encontrar uma ave nativa que havia partido do noroeste para levar para todos os recantos, atrav\u00e9s de suas cordas vocais, a melodia que das \u00e1guas emanava, ambos formaram um lindo dueto, e a eles vieram juntar-se milhares de outros p\u00e1ssaros, formando assim um coro de sublime encantamento com as \u00e1guas do grande rio.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim, p\u00e1ssaros vindos de todas as cercanias, atra\u00eddos pelas VOZES DO URUGUAI, em coro entoaram cantos de angelical ternura. Enquanto cantavam, eis que um luzeiro infindo pairou novamente sobre as matas de sarandis, onde se viu, em letras enormes um letreiro formando a palavra ALENRIO. Estava assim criada a ACADEMIA DE LETRAS DO NOROESTE DO RIO GRANDE DO SUL.<\/p>\n\n\n\n<p>As esta\u00e7\u00f5es se sucederam. Alguns chegaram guiados por antigos versos; outros traziam lendas dobradas no bolso. Homens e mulheres tamb\u00e9m vieram, escrevendo ao compasso das \u00e1guas \u2014 e cada um ofertou sua palavra como quem planta para a subsist\u00eancia. Novos p\u00e1ssaros vieram de todas as periferias da rosa dos ventos, como viageiros do tempo. Trouxeram na bagagem o latim e, guiados pelo vento cantor, entoaram seu canto em conjunto com a voz ancestral. Dizem que a Alenrio nasceu assim: n\u00e3o de decreto, nem de papel selado. Mas da magia e do encantamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo passou, e eis que um dia sonhou-se com a topon\u00edmia do Rio Uruguai, com seu tra\u00e7ado ornamentado por ramos que simbolizam as planta\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o. Ante seus olhos todos viram o azul escuro tomar sua exata propor\u00e7\u00e3o, para representar as \u00e1guas do rio, de onde o vento trazia aos seus ouvidos uma suave cantilena. Depois, viram surgir o azul claro para simbolizar o horizonte, e por \u00faltimo, o verde claro para simbolizar as matas e o relevo da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o bras\u00e3o se forjava, e as \u00e1guas do rio sussurravam um hino aos ancestrais e encarregados de salvaguardar a literatura, e no azul do c\u00e9u delineava-se o acr\u00f4nimo Alenrio. Mesmo em sonhos, teve-se a certeza de que aquilo que se desenhava diante dos olhos representava o profundo v\u00ednculo entre as ra\u00edzes culturais que entrela\u00e7am as margens do Rio Uruguai ao Estado do Rio Grande do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>A academia de letras rec\u00e9m-formada encontrou ali um aprisco seguro e verdadeiro entre escritores de toda a regi\u00e3o. A Alenrio que se prop\u00f4s a atuar como um verdadeiro parlamento liter\u00e1rio continua a acolher novos p\u00e1ssaros migrantes comprometidos com a preserva\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da literatura e do vern\u00e1culo. Seu canto conjunto embala a terra, as matas, as estrelas, as \u00e1guas do rio e a lua que nela se espelha.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MITO DE FUNDA\u00c7\u00c3O DA ALENRIOCarlos Pedroso dos SantosRenato Pereira Certo dia o Minuano, num passado muito distante, depois de transpor os Andes para ganhar a liberdade de muitos horizontes, fizera nascer um verde poncho com as sementes trazidas no bolso de seu chirip\u00e1, para com ele cobrir a dilatada Prov\u00edncia de S\u00e3o Pedro, a P\u00e1tria [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_eb_attr":"","footnotes":""},"class_list":["post-1225","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1225"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1244,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1225\/revisions\/1244"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}