{"id":1340,"date":"2026-07-06T09:07:31","date_gmt":"2026-07-06T12:07:31","guid":{"rendered":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/?p=1340"},"modified":"2026-07-06T09:18:22","modified_gmt":"2026-07-06T12:18:22","slug":"missoes-400-anos-o-jubilo-dos-invasores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/missoes-400-anos-o-jubilo-dos-invasores\/","title":{"rendered":"MISS\u00d5ES 400 ANOS: O J\u00daBILO DOS INVASORES?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;A poesia est\u00e1 em tudo, na guerra como no amor.&#8221; &#8211; Machado de Assis<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As Miss\u00f5es est\u00e3o em festa: comemoram-se os 400 anos da chegada dos espanh\u00f3is e portugueses a esta regi\u00e3o. Ali\u00e1s, houve den\u00fancias de que, inicialmente, os verdadeiros donos destas terras seriam invisibilizados nas comemora\u00e7\u00f5es. Ao que parece, entretanto, ser\u00e1 reservado algum espa\u00e7o nessa festan\u00e7a financiada com dinheiro p\u00fablico, que poderia muito bem ser utilizado para devolver aos guaranis ao menos uma pequena parte daquilo que lhes \u00e9 de direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estaria essa leitura da hist\u00f3ria equivocada? Acredito que n\u00e3o. Aos guaranis sequer foi dado o direito de existir como sujeitos de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria; o que dizer, ent\u00e3o, do direito \u00e0 palavra. Relembremos um pouco dos fatos. Nestas terras viviam in\u00fameras tribos ind\u00edgenas, em estreita rela\u00e7\u00e3o com a natureza. Na regi\u00e3o que hoje corresponde ao noroeste do Rio Grande do Sul, predominavam os povos guaranis e kaingangs.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois, todos conhecem a hist\u00f3ria: os europeus invadiram as Am\u00e9ricas e promoveram um dos maiores genoc\u00eddios de que se tem conhecimento. Junto com as armas, sabemos, veio a cruz. Aqui chegaram os jesu\u00edtas, ordem religiosa ligada \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica que tinha na educa\u00e7\u00e3o uma de suas principais ferramentas de atua\u00e7\u00e3o. Fundaram escolas, ensinaram of\u00edcios, organizaram a produ\u00e7\u00e3o e implantaram um modelo social que transformou profundamente a vida ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma vasta regi\u00e3o sob dom\u00ednio espanhol, que abrangia partes do atual sul do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, conseguiram reunir milhares de guaranis nas chamadas redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas, que dariam origem aos c\u00e9lebres Sete Povos das Miss\u00f5es. Nesses lugares n\u00e3o se praticava apenas a f\u00e9. Produziam-se alimentos, erva-mate, criava-se gado, trabalhava-se o ferro e cultivavam-se a m\u00fasica e as artes. Pelo que se sabe, a terra e a produ\u00e7\u00e3o obedeciam a uma l\u00f3gica comunit\u00e1ria que muitos estudiosos compararam, ainda que com ressalvas, a formas de organiza\u00e7\u00e3o coletiva semelhantes ao que hoje chamar\u00edamos de comunismo \u2014 palavra que ainda provoca arrepios em boa parte dos propriet\u00e1rios rurais das belas terras de gado, milho e soja da regi\u00e3o missioneira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas tr\u00eas acontecimentos alteraram radicalmente o destino desse projeto. O primeiro foram os ataques sistem\u00e1ticos dos bandeirantes. O segundo foi a perda de prest\u00edgio da Companhia de Jesus perante as monarquias europeias e, posteriormente, perante a pr\u00f3pria Igreja. Nas palavras de Valter Potalete: a Cia. de Jesus se tornou &#8220;um estado dentro do Estado&#8221;. A forma de relacionamento social e pol\u00edtico dos jesu\u00edtas e guaranis incomodava as Coroas e atrapalhava seus neg\u00f3cios. O terceiro foi a assinatura do Tratado de Madrid, em 1750, pelo qual Espanha e Portugal decidiram reorganizar a division de terras que jamais lhes pertenceram. Portugal entregou \u00e0 Espanha a Col\u00f4nia do Sacramento, situada na entrada do Rio da Prata, e recebeu, em troca, grande parte do territ\u00f3rio que hoje comp\u00f5e o Rio Grande do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses fatos decretaram a sorte dos guaranis. Portugal exigiu que os ind\u00edgenas abandonassem suas terras e fossem transferidos para o outro lado do rio Uruguai. Os guaranis resistiram. Dessa resist\u00eancia nasceu a Guerra Guaran\u00edtica, marcada por viol\u00eancia, sofrimento e pelo massacre de milhares de ind\u00edgenas. Se Sep\u00e9 bradou, ou n\u00e3o, &#8220;esta terra tem dono&#8221;, isso ningu\u00e9m nunca saber\u00e1, j\u00e1 que a poesia est\u00e1 presente at\u00e9 mesmo na guerra. Mas que esta terra tinha dono, ah, quanto a isso n\u00e3o existe nenhuma d\u00favida. A quest\u00e3o \u00e9 que Portugal e Espanha, unidos por um mesmo ideal, uniram-se para expulsar os guaranis de &#8220;suas&#8221; terras. E o mesmo destino tiveram os jesu\u00edtas. Assim iniciou-se o genoc\u00eddio guarani.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma can\u00e7\u00e3o de Cenair Maic\u00e1 que resume poeticamente esse drama: &#8220;A lan\u00e7a veio da Espanha, a espada veio de Portugal&#8221;. E, na outra m\u00fasica, Balaio, Lan\u00e7a e Taquara (Cenair Maic\u00e1\/Silva Rillo), o cantor missioneiro lembra o destino miser\u00e1vel que restou para os guaranis. Nas palavras dos mestres:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Caminham guaranis pelas estradas<br>Trapos de gente se arrastando a p\u00e9<br>Restos da ra\u00e7a dos meus sete povos<br>\u00daltimas cr\u00edas do sangue de Sep\u00e9.<br>Fazem balaios de taquaras bravas<br>Em pobres ranchos que parecem ninhos<br>Onde se abrigam aves migrat\u00f3rias<br>A mendigar alguns mil-r\u00e9is pelos caminhos.<br>O balaio foi taquara, a taquara foi a lan\u00e7a<br>O balaio foi taquara, a taquara foi a lan\u00e7a,<br>Que esteiou os sete povos quando o pago era crian\u00e7a<br>V\u00e3o os \u00edndios pela estrada como aguap\u00e9 pelos rios<br>Cantam ventos tristes nos seus balaios vazios,<br>Cantam ventos tristes nos seus balaios vazios.<br>Seguem os \u00edndios o destino, peregrinos dos sem-terras<br>Trope\u00e7ando nos caminhos j\u00e1 sem luz<br>Afogados na fuma\u00e7a do progresso<br>Junto aos animais em debandada.<br>Das florestas virgens violentadas<br>Pelos que vieram sob o s\u00edmbolo da cruz.<br>Quem os v\u00ea na humildade dos perdidos<br>Na senda amarga desses tempos novos<br>N\u00e3o acredita que seu bra\u00e7o um dia<br>Levantou catedrais nos sete povos<br>Vende balaio o \u00edndio que plantava<br>Um novo mundo no imp\u00e9rio das miss\u00f5es<br>Balaios de taquara que eram lan\u00e7as<br>Marcando a hist\u00f3ria das sete redu\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 verdade que o Rio Grande do Sul deve parte de sua forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u00e0s Miss\u00f5es. O gado introduzido e multiplicado nos campos missioneiros pelos jesu\u00edtas e guaranis tornou-se um dos pilares da economia ga\u00facha. Sob esse aspecto, os jesu\u00edtas deixaram um legado importante para a sociedade que surgiria posteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a pergunta permanece: o que significaram as Miss\u00f5es para os guaranis? Para eles, a hist\u00f3ria foi marcada pela perda das terras, pela destrui\u00e7\u00e3o de grande parte de sua cultura e pela morte de milhares de ind\u00edgenas em guerras travadas em nome de interesses europeus. Sim, \u00e9 verdade que, para os guaranis, em muitos aspectos, as Miss\u00f5es significaram sobreviv\u00eancia. Os bandeirantes, os colonos e os reinos chegariam, como chegaram aos incas. L\u00e1 as armas chegaram primeiro. Aqui, depois de muita negocia\u00e7\u00e3o, vieram os jesu\u00edtas. Mas sob a perspectiva do genoc\u00eddio que ocorreu, h\u00e1 pouco a comemorar e muito a lamentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez os 400 anos das Miss\u00f5es n\u00e3o devessem ser um momento de regozijo, de festa. Deveriam tamb\u00e9m servir como um momento de reflex\u00e3o sobre os custos humanos da coloniza\u00e7\u00e3o e sobre a d\u00edvida hist\u00f3rica que ainda temos com os povos origin\u00e1rios. Costuma-se dizer que os europeus vieram civilizar os ind\u00edgenas. A hist\u00f3ria, contudo, mostra que as maiores guerras, conquistas e massacres partiram justamente da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali\u00e1s, h\u00e1 que se lembrar da Bula Sublimis Deus, documento papal emitido pelo Papa Paulo III em 2 de junho de 1537, como uma tentativa da Igreja de frear os abusos e a viol\u00eancia extrema cometidos pelos colonizadores europeus durante a expans\u00e3o colonial. O documento \u00e9 um marco importante na defesa dos direitos humanos. Talvez seja hora de abandonar a velha oposi\u00e7\u00e3o entre civilizados e selvagens e reconhecer que a barb\u00e1rie n\u00e3o pertence a um povo ou a uma cultura espec\u00edfica. Ela pode surgir em qualquer sociedade que se considere superior \u00e0s demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o bastava tomar as terras ind\u00edgenas. Era preciso ocup\u00e1-las. Foi ent\u00e3o que surgiu a ideia de trazer para c\u00e1 milhares de imigrantes pobres da Europa. A Coroa brasileira encarregou o major Von Sch\u00e4fer de recrutar fam\u00edlias, especialmente na Alemanha e na It\u00e1lia. Prometiam-se terras, financiamento, prote\u00e7\u00e3o e prosperidade. Conta a hist\u00f3ria que muitos explicaram sem recursos para voltar e que alguns chegaram at\u00e9 mesmo a renunciar \u00e0 cidadania de seus pa\u00edses de origem. Quando desembarcaram, encontraram uma realidade muito diferente da prometida. Muitos foram instalados inicialmente em S\u00e3o Leopoldo e, depois, sem terra, sem p\u00e3o, avan\u00e7aram para o interior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu mesmo estou aqui, em Tr\u00eas Passos, nos limites do Rio Uruguai, pr\u00f3ximo das reservas kaingangs e guaranis, como resultado de todo esse processo hist\u00f3rico. E, pior, continuo sem terra! Nestas terras existiam os ervais dos guaranis. Ap\u00f3s persegui\u00e7\u00f5es e deslocamentos for\u00e7ados, eles abandonaram essas \u00e1reas, que passaram a ser exploradas economicamente pelos novos ocupantes. Um neg\u00f3cio bastante lucrativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse cen\u00e1rio, uma pergunta se imp\u00f5e: Se os jesu\u00edtas eram t\u00e3o eficazes em sua miss\u00e3o civilizat\u00f3ria, por que n\u00e3o se dedicaram a catequizar os pr\u00f3prios europeus, que j\u00e1 naquela \u00e9poca demonstravam grande inclina\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia e a guerra? Os guaranis, pelo que se sabe, eram e continuam sendo um povo marcado pela do\u00e7ura, pela solidariedade e pelo afeto. Para muitos, pareciam verdadeiros anjos sobre a Terra. N\u00e3o porque os jesu\u00edtas os tenham catequizado, mas porque sua cultura milenar sempre esteve orientada por valores de conviv\u00eancia, respeito, amor e cuidado com o pr\u00f3ximo e com a terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o acredito que exista muita gente sinceramente arrependida do que foi feito aos guaranis. Afinal, se aquele projeto missioneiro tivesse sobrevivido, talvez toda esta regi\u00e3o fosse deles e fosse organizada segundo princ\u00edpios comunit\u00e1rios que ainda hoje causam desconforto e arrepios em muita gente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, quando vejo as comemora\u00e7\u00f5es dos 400 anos das Miss\u00f5es, n\u00e3o consigo enxergar apenas uma celebra\u00e7\u00e3o. Vejo tamb\u00e9m a mem\u00f3ria de uma derrota hist\u00f3rica dos povos origin\u00e1rios, uma derrota cujas consequ\u00eancias continuam presentes at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por Jos\u00e9 Orlando Sch\u00e4fer<\/strong>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/imortais\/jose-orlando-schafer\/\" data-type=\"page\" data-id=\"464\">clique aqui<\/a>&nbsp;para saber mais sobre o autor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><mark><strong>Nota:&nbsp;<\/strong>Este texto reflete a produ\u00e7\u00e3o autoral do acad\u00eamico e n\u00e3o expressa, necessariamente, opini\u00f5es oficiais da Alenrio. A colet\u00e2nea de textos da se\u00e7\u00e3o \u201cEnsaio\u201d abrange uma diversidade de g\u00eaneros liter\u00e1rios, incluindo artigos, cr\u00f4nicas, contos, ensaios, romances, poesia e artigos de opini\u00e3o, em prosa e verso, enriquecendo o panorama cultural e estil\u00edstico cultivado pela institui\u00e7\u00e3o.<\/mark><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A poesia est\u00e1 em tudo, na guerra como no amor.&#8221; &#8211; Machado de Assis As Miss\u00f5es est\u00e3o em festa: comemoram-se os 400 anos da chegada dos espanh\u00f3is e portugueses a esta regi\u00e3o. Ali\u00e1s, houve den\u00fancias de que, inicialmente, os verdadeiros donos destas terras seriam invisibilizados nas comemora\u00e7\u00f5es. 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