{"id":696,"date":"2022-12-23T22:39:00","date_gmt":"2022-12-24T01:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/?p=696"},"modified":"2025-09-17T15:09:06","modified_gmt":"2025-09-17T18:09:06","slug":"as-pinhas-e-a-caixa-de-sapato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/as-pinhas-e-a-caixa-de-sapato\/","title":{"rendered":"As pinhas e a caixa de sapato"},"content":{"rendered":"\n<p>Conto de Natal<\/p>\n\n\n\n<p>As quase oito d\u00e9cadas de vida me deixaram fatigada e hoje foi um daqueles dias em que n\u00e3o consegui ir at\u00e9 o quarto para deitar-me na cama. Adormeci na velha poltrona esburacada na sala. No c\u00f4modo uma TV, alguns retratos de fam\u00edlia, um velho e empoeirado tapete. Antes mesmo de abrir as p\u00e1lpebras ao acordar, um cheiro floral adentrou pela fresta da janela. Uma \u00faltima cheirada adocicada e meus olhos abriram, andaram por todos os cantos e se perderam por entre os galhos espinhosos. Vi eles ali no canto, enquanto mexia no pequeno brinde de calend\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Me senti aquela crian\u00e7a que rabiscava os dias e aborrecidamente percebia que ainda faltavam muitos e n\u00e3o tinha o porqu\u00ea ficar de vig\u00edlia. Nos dias que seguiram, olhei diversas vezes l\u00e1 fora, j\u00e1 n\u00e3o tinha facilidade para descer a escadaria e ficar no gramado. Dali de cima conseguia ver o telhado de algumas casas da vizinhan\u00e7a, as pontas dos jacarand\u00e1s que cercavam o estrad\u00e3o e o sol no poente caindo mais a oeste. A tardinha vagueou um som das \u00e1rvores cantarolando a noite e a cada dia que passou ele estava mais estridente e ent\u00e3o cantou no meu arvoredo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma manh\u00e3 ensolarada quando come\u00e7aram os preparativos. Todos estavam \u00e0 procura do broto perfeito de arauc\u00e1ria. S\u00f3 tinha uma \u00e1rvore dessas por ali, no potreiro do senhor de barbas longas e barrigudo, bem perto dos erveiros.<\/p>\n\n\n\n<p>O tronco era ruspego e escorregadio, ningu\u00e9m conseguia subir, mas h\u00e1 uns metros um lindo e imponente broto despontava. Pularam uma, duas, tr\u00eas vezes sem conseguir toc\u00e1-lo. De repente estavam de novo na velha Monark, um no banco e outro no var\u00e3o, sumiram pela estrada de cascalho e num estalar apontaram no canto do terreiro de casa. Rodearam e amarraram uma soga no guid\u00e3o, deram meia volta e estavam no potreiro. La\u00e7aram o galho com a corda e se dependuraram at\u00e9 o galho ceder pr\u00f3ximo ao ch\u00e3o. Fez um corte certeiro com o fac\u00e3o e o galho despencou.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizes, sa\u00edram arrastando o galho amarrado \u00e0 bicicleta. Foram para casa. Um dia cansativo, mas o broto agora estava l\u00e1 verdejante na lata de areia no canto da sala. Os olhos pequenos se enchiam de vigor e encantos.<\/p>\n\n\n\n<p>Me peguei procurando as luzes l\u00e1 fora, algo que pudesse ascender a escurid\u00e3o, no corre-corre \u00e0 luminesc\u00eancia, cruzavam-se por todas as dire\u00e7\u00f5es e em poucos segundos as pequenas m\u00e3os iluminavam a noite como far\u00f3is e ao amanhecer as pequenas luzes iam se apagando dentro dos vidros vazios de caf\u00e9 nas mesinhas de cabeceira do quarto das crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais um dia amanhece, h\u00e1 barulhos na rua, crian\u00e7as andam agitadas, balan\u00e7os rangem e debaixo do frescor da nogueira saem em dire\u00e7\u00e3o ao estrad\u00e3o, atravessam uma ro\u00e7a e chegam ao alto das terras da campina. O vento balan\u00e7a e lan\u00e7a as sementes de pinus ao ch\u00e3o. As crian\u00e7as correm pela ro\u00e7a, se agacham, juntam e colocam v\u00e1rias sementes na camiseta. Voltam segurando as pontas da vestimenta na m\u00e3o e correndo em disparada pelos murunduns.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m correm pelo quintal revirando caules, desde o tronco liso e escorregadio da goiabeira at\u00e9 os finos galhos da copa arqueada do limoeiro, onde h\u00e1 algumas manchas esbranqui\u00e7adas. No parreiral, apenas lascas soltas dos caules antigos e retorcidos. Por fim, no alto da centen\u00e1ria nogueira, seus longos e corpulentos galhos, relvados carregam uma min\u00fascula e imponente floresta. Levei um punhado comigo e ele virou um belo tapete felpudo que encobriu o caminho de areia e o pequeno lago de papel alum\u00ednio. Ali os animais e os tr\u00eas reis acharam o caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>O menino e os pais ficaram dentro da caixa vazia de bombons. O anjo e a estrela foram amarrados l\u00e1 no alto reluzindo sobre o marrom das pinhas dependuradas. Mal tinha amanhecido e nossa m\u00e3e entrou pelo quarto e nos deu logo cedo uma boa caixa de sapatos. Entusiasmados, cada um de n\u00f3s colocou sua caixa embaixo da cama. As noites se tornaram intermin\u00e1veis, por fim adormecemos em meio a magia da espera. Todas as manh\u00e3s acordamos e conferimos dentro das caixas de sapatos, ainda vazias.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, numa linda manh\u00e3, as caixas amanheceram cheias de doces. O caf\u00e9 de bule estava nos esperando na \u00e1rea com aquelas deliciosas bolachas pintadas e enfeitadas com granulado e a\u00e7\u00facar colorido.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas passavam e se cumprimentavam. Os meninos corriam para acenar de volta. Bisbilhoteiros apareciam nas cozinhas enquanto a nona decorava o rocambole de framboesa. As crian\u00e7as invadiam os quartos \u00e0 procura de mais guloseimas.<\/p>\n\n\n\n<p>Papai Noel n\u00e3o foi visto, mas nos vestimos para o Natal.<\/p>\n\n\n\n<p>Tucunduva, 23 de dezembro de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanize Tomasi, <strong><a href=\"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/imortais\/tanize-tomasi\/\" data-type=\"page\" data-id=\"437\">clique aqui<\/a><\/strong> para saber mais sobre a autora.<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:#fcb900\" class=\"has-inline-color\"><strong>Nota: <\/strong>Os textos apresentados refletem produ\u00e7\u00f5es autorais de acad\u00eamicos da Alenrio e n\u00e3o expressam, necessariamente, as opini\u00f5es oficiais da Academia. A colet\u00e2nea abrange uma diversidade de g\u00eaneros liter\u00e1rios, incluindo artigos, cr\u00f4nicas, contos, ensaios, romances, poesia e artigos de opini\u00e3o, em prosa e verso, enriquecendo o panorama cultural e estil\u00edstico cultivado pela institui\u00e7\u00e3o.<\/mark><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conto de Natal As quase oito d\u00e9cadas de vida me deixaram fatigada e hoje foi um daqueles dias em que n\u00e3o consegui ir at\u00e9 o quarto para deitar-me na cama. Adormeci na velha poltrona esburacada na sala. No c\u00f4modo uma TV, alguns retratos de fam\u00edlia, um velho e empoeirado tapete. Antes mesmo de abrir as [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-696","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ensaios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/696","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=696"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/696\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":928,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/696\/revisions\/928"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alenrio.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}