MISSÕES 400 ANOS: O JÚBILO DOS INVASORES?

“A poesia está em tudo, na guerra como no amor.” – Machado de Assis

As Missões estão em festa: comemoram-se os 400 anos da chegada dos espanhóis e portugueses a esta região. Aliás, houve denúncias de que, inicialmente, os verdadeiros donos destas terras seriam invisibilizados nas comemorações. Ao que parece, entretanto, será reservado algum espaço nessa festança financiada com dinheiro público, que poderia muito bem ser utilizado para devolver aos guaranis ao menos uma pequena parte daquilo que lhes é de direito.

Estaria essa leitura da história equivocada? Acredito que não. Aos guaranis sequer foi dado o direito de existir como sujeitos de sua própria história; o que dizer, então, do direito à palavra. Relembremos um pouco dos fatos. Nestas terras viviam inúmeras tribos indígenas, em estreita relação com a natureza. Na região que hoje corresponde ao noroeste do Rio Grande do Sul, predominavam os povos guaranis e kaingangs.

Depois, todos conhecem a história: os europeus invadiram as Américas e promoveram um dos maiores genocídios de que se tem conhecimento. Junto com as armas, sabemos, veio a cruz. Aqui chegaram os jesuítas, ordem religiosa ligada à Igreja Católica que tinha na educação uma de suas principais ferramentas de atuação. Fundaram escolas, ensinaram ofícios, organizaram a produção e implantaram um modelo social que transformou profundamente a vida indígena.

Em uma vasta região sob domínio espanhol, que abrangia partes do atual sul do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, conseguiram reunir milhares de guaranis nas chamadas reduções jesuíticas, que dariam origem aos célebres Sete Povos das Missões. Nesses lugares não se praticava apenas a fé. Produziam-se alimentos, erva-mate, criava-se gado, trabalhava-se o ferro e cultivavam-se a música e as artes. Pelo que se sabe, a terra e a produção obedeciam a uma lógica comunitária que muitos estudiosos compararam, ainda que com ressalvas, a formas de organização coletiva semelhantes ao que hoje chamaríamos de comunismo — palavra que ainda provoca arrepios em boa parte dos proprietários rurais das belas terras de gado, milho e soja da região missioneira.

Mas três acontecimentos alteraram radicalmente o destino desse projeto. O primeiro foram os ataques sistemáticos dos bandeirantes. O segundo foi a perda de prestígio da Companhia de Jesus perante as monarquias europeias e, posteriormente, perante a própria Igreja. Nas palavras de Valter Potalete: a Cia. de Jesus se tornou “um estado dentro do Estado”. A forma de relacionamento social e político dos jesuítas e guaranis incomodava as Coroas e atrapalhava seus negócios. O terceiro foi a assinatura do Tratado de Madrid, em 1750, pelo qual Espanha e Portugal decidiram reorganizar a division de terras que jamais lhes pertenceram. Portugal entregou à Espanha a Colônia do Sacramento, situada na entrada do Rio da Prata, e recebeu, em troca, grande parte do território que hoje compõe o Rio Grande do Sul.

Esses fatos decretaram a sorte dos guaranis. Portugal exigiu que os indígenas abandonassem suas terras e fossem transferidos para o outro lado do rio Uruguai. Os guaranis resistiram. Dessa resistência nasceu a Guerra Guaranítica, marcada por violência, sofrimento e pelo massacre de milhares de indígenas. Se Sepé bradou, ou não, “esta terra tem dono”, isso ninguém nunca saberá, já que a poesia está presente até mesmo na guerra. Mas que esta terra tinha dono, ah, quanto a isso não existe nenhuma dúvida. A questão é que Portugal e Espanha, unidos por um mesmo ideal, uniram-se para expulsar os guaranis de “suas” terras. E o mesmo destino tiveram os jesuítas. Assim iniciou-se o genocídio guarani.

Há uma canção de Cenair Maicá que resume poeticamente esse drama: “A lança veio da Espanha, a espada veio de Portugal”. E, na outra música, Balaio, Lança e Taquara (Cenair Maicá/Silva Rillo), o cantor missioneiro lembra o destino miserável que restou para os guaranis. Nas palavras dos mestres:

“Caminham guaranis pelas estradas
Trapos de gente se arrastando a pé
Restos da raça dos meus sete povos
Últimas crías do sangue de Sepé.
Fazem balaios de taquaras bravas
Em pobres ranchos que parecem ninhos
Onde se abrigam aves migratórias
A mendigar alguns mil-réis pelos caminhos.
O balaio foi taquara, a taquara foi a lança
O balaio foi taquara, a taquara foi a lança,
Que esteiou os sete povos quando o pago era criança
Vão os índios pela estrada como aguapé pelos rios
Cantam ventos tristes nos seus balaios vazios,
Cantam ventos tristes nos seus balaios vazios.
Seguem os índios o destino, peregrinos dos sem-terras
Tropeçando nos caminhos já sem luz
Afogados na fumaça do progresso
Junto aos animais em debandada.
Das florestas virgens violentadas
Pelos que vieram sob o símbolo da cruz.
Quem os vê na humildade dos perdidos
Na senda amarga desses tempos novos
Não acredita que seu braço um dia
Levantou catedrais nos sete povos
Vende balaio o índio que plantava
Um novo mundo no império das missões
Balaios de taquara que eram lanças
Marcando a história das sete reduções.”

É verdade que o Rio Grande do Sul deve parte de sua formação econômica às Missões. O gado introduzido e multiplicado nos campos missioneiros pelos jesuítas e guaranis tornou-se um dos pilares da economia gaúcha. Sob esse aspecto, os jesuítas deixaram um legado importante para a sociedade que surgiria posteriormente.

Mas a pergunta permanece: o que significaram as Missões para os guaranis? Para eles, a história foi marcada pela perda das terras, pela destruição de grande parte de sua cultura e pela morte de milhares de indígenas em guerras travadas em nome de interesses europeus. Sim, é verdade que, para os guaranis, em muitos aspectos, as Missões significaram sobrevivência. Os bandeirantes, os colonos e os reinos chegariam, como chegaram aos incas. Lá as armas chegaram primeiro. Aqui, depois de muita negociação, vieram os jesuítas. Mas sob a perspectiva do genocídio que ocorreu, há pouco a comemorar e muito a lamentar.

Talvez os 400 anos das Missões não devessem ser um momento de regozijo, de festa. Deveriam também servir como um momento de reflexão sobre os custos humanos da colonização e sobre a dívida histórica que ainda temos com os povos originários. Costuma-se dizer que os europeus vieram civilizar os indígenas. A história, contudo, mostra que as maiores guerras, conquistas e massacres partiram justamente da Europa.

Aliás, há que se lembrar da Bula Sublimis Deus, documento papal emitido pelo Papa Paulo III em 2 de junho de 1537, como uma tentativa da Igreja de frear os abusos e a violência extrema cometidos pelos colonizadores europeus durante a expansão colonial. O documento é um marco importante na defesa dos direitos humanos. Talvez seja hora de abandonar a velha oposição entre civilizados e selvagens e reconhecer que a barbárie não pertence a um povo ou a uma cultura específica. Ela pode surgir em qualquer sociedade que se considere superior às demais.

Mas não bastava tomar as terras indígenas. Era preciso ocupá-las. Foi então que surgiu a ideia de trazer para cá milhares de imigrantes pobres da Europa. A Coroa brasileira encarregou o major Von Schäfer de recrutar famílias, especialmente na Alemanha e na Itália. Prometiam-se terras, financiamento, proteção e prosperidade. Conta a história que muitos explicaram sem recursos para voltar e que alguns chegaram até mesmo a renunciar à cidadania de seus países de origem. Quando desembarcaram, encontraram uma realidade muito diferente da prometida. Muitos foram instalados inicialmente em São Leopoldo e, depois, sem terra, sem pão, avançaram para o interior.

Eu mesmo estou aqui, em Três Passos, nos limites do Rio Uruguai, próximo das reservas kaingangs e guaranis, como resultado de todo esse processo histórico. E, pior, continuo sem terra! Nestas terras existiam os ervais dos guaranis. Após perseguições e deslocamentos forçados, eles abandonaram essas áreas, que passaram a ser exploradas economicamente pelos novos ocupantes. Um negócio bastante lucrativo.

Diante desse cenário, uma pergunta se impõe: Se os jesuítas eram tão eficazes em sua missão civilizatória, por que não se dedicaram a catequizar os próprios europeus, que já naquela época demonstravam grande inclinação para a violência e a guerra? Os guaranis, pelo que se sabe, eram e continuam sendo um povo marcado pela doçura, pela solidariedade e pelo afeto. Para muitos, pareciam verdadeiros anjos sobre a Terra. Não porque os jesuítas os tenham catequizado, mas porque sua cultura milenar sempre esteve orientada por valores de convivência, respeito, amor e cuidado com o próximo e com a terra.

Não acredito que exista muita gente sinceramente arrependida do que foi feito aos guaranis. Afinal, se aquele projeto missioneiro tivesse sobrevivido, talvez toda esta região fosse deles e fosse organizada segundo princípios comunitários que ainda hoje causam desconforto e arrepios em muita gente.

Por isso, quando vejo as comemorações dos 400 anos das Missões, não consigo enxergar apenas uma celebração. Vejo também a memória de uma derrota histórica dos povos originários, uma derrota cujas consequências continuam presentes até os dias atuais.

Por José Orlando Schäferclique aqui para saber mais sobre o autor.

Nota: Este texto reflete a produção autoral do acadêmico e não expressa, necessariamente, opiniões oficiais da Alenrio. A coletânea de textos da seção “Ensaio” abrange uma diversidade de gêneros literários, incluindo artigos, crônicas, contos, ensaios, romances, poesia e artigos de opinião, em prosa e verso, enriquecendo o panorama cultural e estilístico cultivado pela instituição.

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